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17/12/2017

Direitos das mulheres e a rotina à frente da Deam foram uns dos assuntos da entrevista com a delegada Rosely Molina

sábado, 08 de março de 2014

 Neste mês a nossa entrevista é especial, uma homenagem às mulheres, já que neste mês de março, no dia 8 se comemora o Dia Internacional da Mulher. Àquelas que outrora eram consideradas o “sexo frágil”, hoje mostram que podem desenvolver atividades antes exercidas apenas pelo sexo masculino, e fazem isso com total competência e com a sensibilidade que só as mulheres têm.

Para homenagear as mulheres entrevistamos a delegada titular da Deam, Rosely Molina. A frente da Deam, Molina convive diariamente com mulheres vítimas de violência.   

 MS RepórterComo é seu dia a dia à frente da Deam?

Rosely Molina – É uma delegacia que tem uma demanda muito grande, nós atendemos uma média de 70 mulheres por dia, sabemos que ao levantar pela manhã, temos que estar bem para poder chegar e atender todas essas pessoas muito bem.

MS Repórter - E  como fica o psicológico depois de atender toda essa demanda?

Molina – São muitos casos, mas nós trabalhamos aqui em três delegadas, escrivãs, investigadores, administrativo, temos estagiários, voluntários, é uma equipe muito grande e muito boa, muito comprometida e preparada.

Todo mês fazemos uma reunião para verificar os prós e contras, o que está sendo positivo e o que precisa ser melhorado. Conforme os atendimentos, nós vamos verificando que é algo muito comum, não é apenas uma mulher que sofre isso, são muitas mulheres, a situação da violência é algo social mesmo, é muito grande, de muito tempo, precisa ser trabalhado e quanto mais treinamento a gente tem, mais cursos de especialização que a gente faz, a gente consegue lidar com isso de uma maneira técnica, porém sem deixar o lado sensível que todas nós mulheres temos, não só nós mulheres da delegacia, isso é uma característica da mulher ser sensível, mas os homens que trabalham aqui também têm essa sensibilidade para poder dar um bom atendimento e saber separar a parte técnica do profissionalismo do sentimento que ele nutre com relação com tudo aquilo.

MS Repórter - A senhora já passou por outras delegacias como a Denar, Derf, Polinter e Delegacia de Defraudações. Como foi sua passagem por essas delegacias?

Molina – Nós somos preparados para sermos delegados de polícia, temos que lidar com todo o tipo de ocorrência. A gente estuda muito, todo delegado tem que ter o curso de Direito, além do curso de Direito eu sou pedagoga, tenho cinco pós-graduações: em Direito Penal, Processo Penal, Planejamento Estratégico, que é um curso que fazemos na Escola Superior de Guerra, tenho pós em Docência em Ensino Superior, então dou aula na Acadêmia de Polícia, e Gestão em Segurança Pública, que é justamente para estar à frente das delegacias e trabalhar. Então tem que ter um preparo. A Senasp (Secretaria Nacional de Segurança Pública) nos manda semestralmente cursos que a gente faz também, então a gente se molda a cada delegacia.

Na Denar a gente tinha que sair “estourar” boca de fumo, correr atràs de traficante, prender, enfim, saber reconhecer cada tipo de droga e fazer a pesagem.Na Derf era diferente, a gente tinha que ir para a rua tentar desvendar roubo, assalto, furto, apreender material furtado, porque obviamente que a pessoa que furta não vai falar furtou, você tem que ter todo um trabalho para recuperar esse bem que foi subtraído, então é um outro tipo de atividade. Na Delegacia de Defraudações, que eu me apaixonei e gosto muito, a gente trabalhava com estelionato, crime fiscal, fraude, falsidade documental, ali é a delegacia que mais tem que estudar, porque demanda o conhecimento é muita coisa diferente, muitas áreas. E na Delegacia da Mulher,  é que eu me realizei mesmo, porque você lida muito mais com o íntimo das pessoas, a mulher vem e coloca o sentimento dela e você tem que aprender e lidar com emoção e isso é muito bacana.

Na Deam há uma efetividade muito boa, porque a gente pede uma prisão preventiva de um agressor que está ali em uma violência eminente, em um risco eminente para a mulher e a gente consegue. Então a gente tem prendido homens, temos dado o exemplo para a sociedade de que a Lei Maria da Penha funciona e a gente tem trabalhado casos de homicídios onde conseguimos a prisão, é muito gratificante trabalhar na Delegacia da Mulher.

MS Repórter - Durante todo esse tempo à frente da Deam, a senhora já sofreu ameças?

Molina – Ameaças recebe-se, é uma atividade de risco e quando a gente entra a gente já sabe que é uma atividade de risco, que a gente tem que ter todos os mecanismos de segurança. Temos que estar atentos não só com a gente, mas com o pessoal que trabalha com a gente, com a nossa família, temos regras de segurança que seguimos constantemente.

MS Repórter - A senhora consegue levar uma vida normal?

Molina – Sim, porém a cautela é maior. Temos certas técnicas que utilizamos como policial e a nossa visão de mundo é diferente, temos uma perspicácia mais aguçada.

MS Repórter - A senhora já enfrentou algum tipo de preconceito nas outras delegacias que passou?

Molina – Não, é interessante que todo mundo que fala comigo e sabe que sou delegada fala que a mulher faz e faz bem feito. Tudo que a mulher coloca a mão ela se dedica, ela é mais minuciosa, mais detalhista, então isso é muito positivo. A gente sabe que há muitos anos havia um preconceito quanto a Delegacia da Mulher, mas isso já caiu por terra porque hoje se sabe que atentar contra uma mulher está se atentando contra os direitos humanos, contra a dignidade da pessoa humana. Hoje todos os organismos mundiais trabalham nesse sentido de fazer um enfrentamento pleno a violência contra a mulher.

MS Repórter - As mulheres conseguiram conquistar muitos direitos, na sua opnião a sociedade se adaptou a esses novos direitos?

Molina – Não, ela está se adaptando. Todo esse avanço em relação à mulher é algo novo,desde a Constituição de 1988 é que mais se viu esses direitos, então é novo, mas é avanço e estamos caminhando para uma mudança de mentalidade, acho que as coisas vão se adequando com o passar do tempo. Já avançamos muito, mas ainda há muito o que deve ser feito.

MS Repórter - A Lei Maria da Penha completa oito anos em 2014, a senhora acredita que essa Lei deu mais segurança para as mulheres denunciarem?

Molina – Sem dúvida nenhuma. A Lei Maria da Penha é uma das três melhores leis do mundo, é uma lei muito bem escrita, muito bem pensada e traz mecanismos realmente em defesa da mulher. A partir do momento que ela diz quais são os tipos de violência que uma mulher está sujeita, que são cinco: violência física, moral, psicológica, patrimonial e sexual, ela abre esse leque para que as pessoas saibam que a violência contra a mulher não é só agressão física tem outro tipo de violência intramuros, silênciosa.

A Lei Maria da Penha traz mecanismos de proteção como a medida protetiva de urgência que afasta o agressor do lar e deixar distante da mulher para que ela tenha tranquilidade de resolver os seus problemas, de tramitar esse procedimento, então a gente verifica muita coisa positiva.

MS Repórter - O agressor possui um perfil?

Molina – Não, nós não temos perfil nem do homem agressor e nem da vítima, a gente verifica que a violência ocorre dentro dos lares e ela não escolhe idade, ela não escolha religião, ela não escolhe cultura no sentido de ensino, que tenha mais conhecimento ou menos conhecimento, profissão, nada disso. Infelizmente  a gente não tem esse perfil.

MS Repórter - Para a senhora o grande erro das mulheres é acreditar que o agressor pode mudar?

Molina – A violência contra a mulher é crescente e gradativa, aos poucos ela vai aumentando e hoje eu vejo que depois desse trabalho todo que a gente faz na Deam, a Polícia Civil mudou muito, ela ajuda muito a Deam, o Estado como um todo tem essa rede de atendimento que está aí para auxiliar as mulheres a mídia é muito importante, pois está sempre do nosso lado divulgando o trabalho que é realizado, isso faz com que as mulheres fiquem mais corajosas. Elas não esperam mais aquele tempo que elas esperavam, elas já procuram e o que a gente passa é isso, a orientação é realmente essa que no primeiro sinal de violência ela já procure, já venha até a delegacia para que a gente já tome providência antes que o mal maior aconteça.

Mas a gente sabe que tem muitos fatores que influenciam ainda, a mulher ainda tem aquela coisa do romantismo que ainda impera, então ela acha que o amor vai conseguir transformá-lo, que ele vai mudar, não digo que isso não possa acontecer, claro que pode, mas isso demanda de muito diálogo, muito entendimento, de muita paciência, há uma série de fatores que precisam ser juntados pra poder ter um bom termo. As mulheres têm muito receio da sociedade, do que vão pensar, a gente sabe que ainda existe muitas mulheres presas a determinados paradigmas, mas estamos quebrando-os com o passar do tempo, devagar estamos conseguindo dar para essa mulher uma resposta da Polícia Civil, da Delegacia da Mulher para todos esses males.

MS Repórter - Teve algum crime que mais te chocou ?

Molina – Não dá pra dizer porque cada um a gente vive aquele crime intensamente porque vamos a fundo de cada situação, a gente quer conhecer a vítima, a vida dela, os problemas, passar os direitos que ela tem, saber como é a relação com a família, como se estabeleceu todo o conflito, conhecer o autor para saber o porquê daquela atitude, então é todo um processo. A gente fala que o inquérito policial é esse caminhar é vc investigar a fundo tudo que aconteceu, todas as circunstâncias, cada caso é um caso novo que nos surpreende sempre, faz com que a gente sempre repense nas atitudes e queira melhorar e fazer com que aquilo se resolva mais rápido e da melhor maneira e a gente tem um trabalho bem árduo, bem grande, mas bem prazeroso.

MS Repórter - A Deam atende cerca de 70 casos por dia, essa demanda ainda é muito grande?

Molina - É um número muito grande realmente, nós já ultrapassamos os 1200 boletins de ocorrência neste ano. É muita coisa é um número muito alto, cada caso que aparece é uma história diferente é uma família, a gente tem que ter a agilidade pra poder atender e fazer rápido e investigar, mas a gente tem que ter essa sensibilidade, essa tranquilidade pra poder fazer com que a pessoa se sinta bem e nos traga realmente os seus problemas.

MS Repórter - Se a mulher não quiser retornar para sua casa tem algum abrigo que ela possa ficar?

Molina – Sim, quando há um eminente risco de morte, fazemos um encaminhamento para a casa abrigo que é da Subesecretaria da Mulher do Governo do Estado e ela fica abrigada com os filhos por um período de até 90 dias, então isso é uma inovação, não são todos os estados que tem e Mato Grosso do Sul está a frente mostrando que realmente ele é comprometido com a causa da mulher.

MS Repórter - E a delegacia da Mulher 24 horas, tem algum projeto para isso?

Molina – Nós estamos trabalhando, existe a Casa da Mulher Brasileira que está para ser construída é um projeto nacional. Lá haverá o atendimento 24 horas, não só da Delegacia da Mulher, mas todos os setores ligados à violênca doméstica como o Ministério Público, o Poder Judiciário, Defensoria Pública, Assistência Social, psicológica, saúde, vai ter um pouquinho de tudo para atender essas mulheres. Com relação a Polícia Civil nós temos um concurso em andamento, acredito que ao final dele serão lotados mais delegados, investigadores para reforçar esse trabalho que a gente já faz.

MS Repórter - Qual a mensagem que a senhora deixa para as mulheres neste mês onde se comemora o Dia Internacional da Mulher?

Molina – Nós somos mulheres fortes, todas as mulheres têm essa força, mas ao mesmo tempo tem essa suavidade, essa beleza e isso tem que ser colocado para fora a gente tem que mostrar para as pessoas. A mulher tem um jeito de lidar com as coisas que é muito especial e os legisladores enxergaram isso e eles dizem todas as vezes que nós somos merecedores de bem estar e de paz, de tranquilidade e que a Legislação está aí pra isso, nós temos que saber que temos direitos e que esses direitos têm que ser respeitados.

 Por Mariana Anjos e Mariana Rodrigues

Delegada titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher, Rosely Molina. Foto: Mariana Rodrigues/MS Repórter
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