MSRepórter - Notícias de Campo Grande-MS
29/06/2017

Delegada fala sobre vantagens e dificuldades de sua carreira e os avanços conquistados pela mulher

sábado, 08 de março de 2014

Beleza, sensibilidade, instinto, trabalhadora, filha, esposa, mãe, dona de casa. São muito atributos e qualidades relacionadas a mulher e nos dias de hoje elas conseguem cada vez mais executar diversas funções ao mesmo tempo com muita eficiência e disposição, além de todo o carinho demonstrado em tudo que faz, principalmente ao conciliar vida pessoal com a profissional.

Esta realidade está presente na maioria dos lares atualmente, muitas vezes até exercendo trabalhos perigosos e aparentemente sendo possível fazer somente por homens, como meio policial. Neste sábado, dia 08 de março, é comemorado o Dia Internacional da Mulher e para falar das conquistas, de como a mulher pode exercer qualquer função que se disponha, o site MS Repórter conversou com uma das delegadas que está sempre em evidência em Mato Grosso do Sul, Maria de Lurdes Cano, Delegada Titular da Defurv, por estar a frente de casos de grande repercussão e resolvendo com eficacia e sensibilidade

Ela conta sobre sua paixão pelo trabalho, os caso que mais marcou sua vida, sua família, como concilia o trabalho, a importancia da educação familiar, como a mulher é capaz de exercer funções diversas e como ela deve se portar para conquistar cada vez msi seu espaço, sem deixar de lado seusafazeres pessoais. Confira a entrevista:

MS Repórter - Como foi seu início na polícia e o que faz pra exercer o trabalho com eficiência?

Delegada - Eu fui investigadora primeiro, estudei em escola pública, à noite como qualquer pessoa que precisa de um recurso a mais. Como investigadora eu acho que a gente tem uma bagagem melhor, até pra você investigar os fatos de uma forma geral, você tem uma outra visão na realidade. Eu sempre gostei da parte investigativa, sempre tive o perfil pra investigação, sempre foi meu dom, tanto que o caso do Maníaco da Cruz, que era um caso que estava investigando no escuro, não tinha uma linha, não tinha nada e graças a Deus deu certo. No caso do Du também, daquela criança que mataram, que estava sendo investigado por uma delegacia e acabou vindo pra nós e conseguimos esclarecer e prender todo mundo.

Isso não significa ser melhor que outros delegados, não é isso, é que a gente costuma, eu mesmo contumo fazer os meus trabalhos investigativos voltado para todos os lados, não somente naquilo que a vítima aponta, mas aquilo que cerca o meio em que todos as pessoas envolvidas e relacionadas vivem. Eu acho que fecha uma investigação melhor  e o resultado é muito mais positivo.

Entao você não se limita a algo e sim a tudo, aos detalhes e os nossos presos aqui são bastante diferenciados, por exemplo, o caso dos jovens Breno e Leonardo, eu vim pra ca em julho de 2012, esse fato acotneceu em agosto de 2012, não tinha nenhum mês praticametne que eu estava aqui, foi um trabalho realmente diferenciado, que chocou muito, por que eu atendi aquela família desde o princípio e eu que tive que dar a notícia a eles, que os corpos tinham sido encontrados. Eles estavam comigo na delegacia quando encontraram e com aquela esperança de terem os filhos de volta e não tiveram.

MS Repórter - Como é dar uma notícia como essa aos familiares?

Delegada - Nunca uma notícia dessa é agradável de se dar e muito menos agradável pra quem recebe. Acho que o momento que eles receberamm a notícia foi tão chocante que eles acabaram também abalando a gente enquanto pessoa. Uma das irmãs deles me pediram no momento desesperada, prendam essas pessoas, prendam essas pessoas, entao isso me marcou muito. E também tem o outro lado que me ajuda muito, que é a crença em Deus e eu acho que é o caminho que se abre pra tudo. Não adianta você ter seu lado profissional, sua vida afetiva, seu lazer, sua vida amorosa e muito mais, mas se não tiver o lado espiritual, seja ele qual for, você não consegue se sustentar.

MS Repórter - Como é sua relação com a população em geral?

Delegada - As vezes estamos em um caso, complicado como desses jovens e você está  no "escuro", sem uma noção de como começar e você tendo um lado espuritual mais aflorado, as pesoas acabam se aconchegando, se aproximando e a gente acaba esclarecendo muita coisa. E a confiabilidade também que a população tem no trabalho da gente, isso é muito bom, por que a partir do momento em que as pessoas, o povo, eles tem essa credibildiade no seu trabalho, eles acreditam que você fai fazer realmente, que vai investigar, esclarecer, você passa a ter colaboradores fora da delegacia, que antigamente se chamava de informante e hoje chamamos de colaboradores.

Essas pessoas são muito importantes para o trabalho policial. Elas que auxiliam a própria investigação, que confiam que você vai fazer e confiam no seu resultado. Eu tenho esse vínculo muito forte com Campo Grande inteiro, tenho muita gente que me apoia. A própria população, que liga, que vem aqui para passar uma informação, para saber se determinada situação é verdade ou não. As vezes ate não acontece um crime, mas ela acha, a gente investiga e da aquele retorno, aquela satisfação. Muitos vem com a informação que acaba ajudando a esclarecer muita coisa, então essa confiabilidade, esse relacionamento de confiança entre a polícia e o cidadão ou a polícia e a sociedade, isso é de total importância, se você não tiver esse vínculo, esse relacionamento, você nao consegue caminhar. Sozinha não caminha por parte alguma, os policiais e também, do outro lado, o povo, a sociedade. E esse é o caminho do sucesso.

MS Repórter - Com relação ao Dia da Mulher, você acha que ainda tem preconceito com relação a determinado trabalho ser para homens?

Delegada - Quando eu vim pra ca, essa delegacia (Defurv) por ser muito operacional, é uma delegacia que foi destinada a um homem e administrar e não uma mulher. Eu sou a terceira mulher que passei por aqui, desde que a delegacia foi inaugurada, devido ela ser uma unidade opercional. Então a gente vai quebrando as barreiras, os preconceitos, que não pode estar uma mulher na frente, por que vai para as ruas, viaja, as vezes passa a noite fora, na viatura, vai  para o mato, essa história toda.

Mas ai você demonstra para os policiais e para a administração que você é profissional, embora seja do sexo feminino ou não. Eu não encontrei dificuldade alguma  em uma unidade policial, nenhuma e sempre trabalhei com homens inclusive, trabalhei com mulheres, mas com homens, delegados, me auxiliando e nunca tive problema nenhum, de relacionamento, profissional, preconceito, nada, nada, nada. Isso por que você sabe se impor, enquanto profissional, mas sabe também transmitir a confiança no trabalho, que conhece, isso ajuda muito.

Agora quanto aos nossos presos, eles certamente preferem um outro delegado para acompanhá-los, para recebê-los, para investigá-los, do que a mim. Eles tem o costume de dizer que eu sou muito dura nas investiações, todos, sem excessão. Eles preferem as vezes, quando eles chegam na delegacia de polícia, já perguntam quem que vai acompanhar meu caso? por que alguns já tem passagem, com frequência, então quando dizem que sou eu, eles ficam super apavorados, por que eles sabem que eu vou investigar até o último instante e o que eles fizeram além daquele fato que é trazido, vai aparecer e o meu modo de trabalhar com eles é um pouco duro, para que eles também não voltem a praticar crimes e tenham responsabilização naquilo que eles fazem realmente.

Muitos deles acreditam na impunidade, por que a lei hoje é muito benéfica, ela favorece muito aos marginais e as vezes deixa a sociedade totalmente desamparada. E os próprios bandidos, sabendo disso, eles acreditam que hoje eles vão ser preso, vão ser indiciados, mas logo amanhã eles estarão nas ruas, cometendo novos crimes. Vários direitos que eles têm, que possibilitam que eles as vezes pratiquem crime aqui, vão presos e logo são liberados, por que a pena a eles aplicada por aquele crime é muito insuficiente para a permanência deles na prisão e eles continuam praticando crimes. Desta forma eles tem o costume de passar pelas delegacias. Então quando eles se deparam comigo, eles sabem que o tratamento vai ser diferenciado e a linha vai ser bastante dura e o que a gente puder fazer para que eles permaneçam mais tempo no sistema prisional, a gente vai fazer.

Outra situação também, é que a mulher, ela é mais perceptiva, ela consegue observar mais o que está em volta dela, diferente do homem, a mulher consegue olhar e consegue visualizar tudo que tem naquele meio, o homem já não, mas é a nossa educação que foi diferenciada, por que nós fomos criadas para cuidar de várias coisas ao mesmo tempo, como marido, casa, filhos e trabalho. Já o homem foi criado para gerenciar, para comandar, ou seja, uma coisa só.

MS Repórter - Você sofre ou já sofreu algum assédio ou indiretas como mulher?

Delegada - Sem graça, ela conta que as vezes acontece, mas a profissional impera, a gente sabe se impor e se sair das situações que não convem, mas a profissão é muito gratificante. O mais legal de tudo isso é você a noite, na hora de dormir, saber que fez alguma coisa boa para uma família, isso é muito bom. Por que quando a caso de morte, isso choca muito a gente, principalmente jovens e com pessoas idosas, é muito ruim realmente, mas de uma maneira geral quando você resolve um problema, seja ele qual for, quando traz a paz, aquele convívio novamente, a tranquilidade, isso te deixa satisfeita, não só como profissional, mas como pessoa também.

MS Repórter - Quais casos que mais marcaram sua carreira até agora?

Delegada -Dudu, Maníaco da Cruz e Breno e Leonardo. Do Breno e Leonardo marcou pela frieza dos autores, eles não tinha motivos pra matar. Eram dois jovens que eu acredito que eles até o último instante acreditavam que iam ser deixados no cativeiro e só iam levar a caminhonete. Eles apanharam muito, muita crueldade, então isso choca, por que eram duas pessoas muito novas e eu tenho filho praticamente da mesma idade. Então quando você se depara com duas pessoas caídas, mortas no chão, você também não consegue, as vezes, separar o lado profissional com o lado familiar, acaba lembrando da sua família e se coloca naquele lugar da família, que ali perdeu os seus  filhos, como que você reagiria, então isso as vezes faz com que acelere a sua vontade de investigar muito mais e com mais rapidez, por que deu aquele choque.

O caso do Maníaco da Cruz ele traz muita lembrança por que foi um caso diferenciado, era um caso de uma pessoa psicopata, então psicopata tem que saber lidar com ele. Logo no início eu consegui ver nele, logo que foi descoberto, um lado da psicopatia muito forte, por que quando ele tinha confessado que tinha matado as pessoas ele me disse até que esperava que não fosse uma mulher que estivesse ali para prendê-lo e isso para ele chocou muito, não era isso que ele queria, isso ele disse na hora da prisão dele.

Depois o contato com ele foi tão eficaz que ele começou a me contar as coisas que fazia e as coisa que ele passou. Então foi um caso que deixou marcas por essa diferenciação em lidar com ele, pois eu tinha que conhecer um pouco da psicologia e da psicopatia para saber lidar com ele, por que o psicopata é uma pessoa extremamente cativante e de certo modo ele te domina facilmente, ele domina muito fácil as vítimas então por eu saber esse fato todo eu tive muita facilidade em lidar, mas ao mesmo tempo eu tive o cuidado de cuidar de todo o meio, por essa facilidade dele de cativar todo o meio, todas as pessoas próximas, inclusive as vezes até os policiais e isso prejudicaria a investigação.

Ele acreditava que, embora ele tinha matado aquelas pessoas, embora ele soubesse o que estava fazendo, no grau de psicopatia dele, no consciente dele estava fazendo um bem para aquela pessoa. Ele não é um doente, é um psicopata, um doente não sabe o que faz, ele já sabe o que faz, mas não consegue segurar os impulsos dele, essa é a diferença.

O cado do Du, o que marcou foi o desespero dos pais, que esperavam encontrar o filho que estava desaparecido, vivo e isso acaba passando para a pessoa enquanto profissisonal. Chegamos com muita dificuldade até os autores e eles foram condenados a uma pena bastante alta, por sinal, todos eles, inclusive o padrasto, que tudo indicava que ele estava envolvido. Então cada caso trouxe uma lembrança diferenciada.

MS Repórter - A que atribui o sucesso na resolução dos seus casos? O que diria ser o seu diferencial?

Delegada - Eu tenho o costume de quando estou investigando um caso de estar muito próximo do povo e eu não falo que sou policial, ai eu fico ali no meio do povo, eu me misturo, seja qual caso for e isso você acaba futuramente adquirindo várias pessoas próximas pra você, até por que quando ja fala que é policial as pessoas se afastam, então quando quer realizar uma boa investigação, você se mistura e as vezes até o próprio investigado nem sabe que é policial. No caso do Maníaco foi assim e o caso dele chocou por que são casos raros de psicopatia, não são comuns e eu lembro que o Maníaco da Cruz disse que eu estava atrapalhando a vida dele, por que estava conseguindo ultrapassar os crime do Maníaco do Parque e ela atrapalho tudo, tamanha frieza como ele tratava o que fazia e achava que era correto.

Eu lembro também de um caso de uma criança de oito meses e a mãe dizia que ele tinha caído, mas no momento da perícia no IML foi visto e notável que a criança estava com muitas lesões e tinha sido torturada e a gente esclareceu que a própria comunicante, a mãe que efetuou a violência e tinha matado a criança de tanto bater. A mãe tinha um transtorno, por que ela esperava o corpo na capela como uma mãe desesperada.

Quando ela chegou na delegacia ela não confessava de maneira nenhuma e ai eu fui para o lado psicológico e perguntei a ela por que aquela criança não gostava dela, ai ela acabou falando e disse que não gostava mesmo e sim mais do seu marido, essa criança nunca sorria pra mim e eu comecei a envolve-la mais, falei pra ela, então e enquanto você batia ela ainda não sorria e ela confirmou que batia batia pra ela sorrir e ela não sorria, onde ela acabou confessando sem perceber, com uma ideia de que batendo ia conseguir um sorriso da criança e não deu certo. E foi concluído que ela também tinha um distúrbio, ela achava que a criança dava mais atenção ao marido do que a ela, o que não era verdade e ela acabou matando a criança.

MS Repórter - Você ou sua família já sofreu ou sofre ameaças, já que lida com casos e criminosos de alta periculosidade?

Delegada - As ameaças todos tem, aqui com mais frequência, por que os presos, como são diferentes, os que passam aqui por nós, que são de quadrilha, eles tem o costume as vezes de não fazer ameaça direta, ameaça direta nunca tive, mais aquelas ameaças indiretas, de ouvir falar sim, mas é como eu digo, todo o tratamento a eles, quando são presos,tem que ser feito de forma rígida, severa e de pulso, pra que eles tenham em mente o seguinte, eu posso até tentar,mas vai ter um retorno.

E é claro que tenho também os cuidados devidos, muito mais cuidado ainda do que qualquer pessoa andando nas ruas, observo tudo. Eu adoro andar sozinha, mas eu observo muito, sou muito atenta, não costumo passar pelos mesmos locais, por que na realdiada as pessaos elas confundem muito, principalmente os marginais, elas confundem o profisisonal com a pessoa, então até ja ouvi, eles dizendo que a gente acabou com a vida deles, e a gente simplesmnte cumpriu a lei, o que pra eles é ruim e errado. Na cabeça deles a polícia que separou eles da família, sendo que eles que se separaram da família ao etrar  vida do crime.

A minha família nunca sofreu nenhuma ameaça por que eu preservo muito, não deixo exposto. Mesmo que as vezes seja inevitável eu procuro sempre não fazer muita exposição. Sem duvida a minha vida pessoal acaba sendo restringida pela minha profissão, acabo não podendo ir em todos os lugares, estar circulado, como passear pelo shopping não tem como, mas tudo isso não é motivo que me faça desistir da profissão ou mudar de área, por que eu adoro desafio, eu gosto do perigo, então pra mim, se um dia conviver sem o perigo, eu acho que não conseguiria mais viver, por que o que você não consegue saber la na frente é o que eu gosto de fazer e descobrir. É a busca que me atrai. E o marginal mesmo que ele seja mais cruel, quadrilheiro perigoso, ele é como qualquer outro, ele tem medo, tem respeito e sofre como qualquer outro ao entrar em uma delegacia de polícia. Ele pode até se julgar melhor ou maior, mas ao entrar da delegacia ele não tem diferença, é um preso comum e é tratado como preso comum.

MS Repórter - O que acha que a mulher deve fazer para continuar mudando essa realidade de mulher ser o sexo frágil e mostrar que ela é capaz?

Delegada - A mulher já conquistou várias situações, vários empregos, vários fatores que até antigamenete era um obstáculo muito grande para uma mulher estar a frente. Discriminação vai haver durante muito tempo ainda, mas cabe a mulher também derrubar e quebrar essas barreiras. Eu acho que se a mulher conseguir realmente, seja qual for a profissão que ela escolher, não importa qual, e ela exercer com gosto, sendo aquilo que ela gosta de fazer e não deixando nunca de ser uma boa mae em casa e educadora, ela consegue ter um serviço assim, uma profissão, um lar, com muito sucesso.

Tudo que faz com gosto, que sinta prazer em fazer, você tem um sucesso muito grande e faz cada vez melhor. O que acontece é que as vezes as pessoas se dedicam tanto no que faz e acaba esquecendo a educação dentro da propria casa, pela ausencia, pela falta de tempo e deixa pra babar, para uma empregada e as vezes aquele mundo que aquela pessoa vive, que esta ali auxiliando teu filho nao é o mesmo mundo teu e acaba não dando aquela educação sadia para os seus filhos e o filho hoje precisa muito da presença de pai e mae, por que se hoje a criminalidade esta tão alta é por conta da educação

A educação hoje que esta ausente e a mulher do passado, com a  presença dela, a educação era melhor e com a ausencia dela hoje, no seio familiar, falta de tempo e preocupação trabalhista, os filhos deixaram de ter esses bons exemplos em casa, então é importante aliar o trabalho com a  educação, nunca esquecer os filhos de lado, por que eles são também as pessoas mais importantes na vida de qualqueru ser humano, a gente não pode esquecer eles. E do lado profisisonal sempre mostrar o que esta fazendo com vontde, com gosto, sendo aquela linha realmente que escolheu para trabalhar, por que vai desenvolver um serviço melhor, valorizado e mesmo que haja discriminação, ela vai conseguiur superar todas as barreiras.

Por: Mariana Anjos e Mariana Rodrigues

Foto: Mariana Rodrigues - MS Repórter
Comente esta Entrevista
Outras entrevistas