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26/05/2017

Criador da única escola de circo da Capital, Ulisses Nogueira fala um pouco de seu trabalho

segunda, 08 de julho de 2013

O MS Repórter entrevistou o criador da única escola de circo de Campo Grande, o circense, ator, bailarino e dirigente da Escola Circo Pantanal, Ulisses Nogueira.

Nesta entrevista, Ulisses contou um pouco como funcionam as aulas, como surgiu a ideia de montar a escola na Capital e os benefícios que as aulas de circo proporcionam ao corpo.

Confira abaixo a entrevista completa:

MS Repórter – Comor surgiu a ideia de montar um escola de circo em Campo Grande?

Ulisses Nogueira – Surgiu porque eu sou daqui, eu nasci em Amambai, com 15 anos comecei a fazer teatro, e com 17 anos fui fazer Artes Cênicas no Rio de Janeiro com um grupo daqui. Chegando lá, eu fui fazer um teste na ENC (Escola Nacional de Circo do Rio de Janeiro), é a única escola Federal que tem no Brasil é uma escola técnica, eu passei no teste e comecei a fazer meio período de faculdade de Artes Cênicas e meio período de Escola de Circo. Após terminar de estudar, eu trabalhei em alguns circos, viajei bastante e nesse meio tempo tive alguns problemas familiares e retornei a Campo Grande, onde resolvi montar e escola.  

MS Repórter – A escola tem quantos alunos?

Ulisses – Temos os alunos da Escola Raio de Sol Pestalozzi que atendemos duas vezes por semana, temos duas turmas de alunos particulares com oito alunos por turma, e um grupo de artistas profissionais.

MS Repórter – Quais são os segmentos trabalhados na Escola?

Ulisses – Aqui a gente trabalha com três segmentos: Circo Especial, que é uma parceria que temos com a Escola Raio de Sol Pestalozzi com alunos com idade entre 14 a 42 anos que vem fazer circo aqui na escola; os Alunos Particulares, que são os alunos que buscam o circo como uma opção de atividade física, e a terceira esfera é a Produção de Espetáculos e Performances Artísticas que é formado por profissionais, onde trabalhamos para montar espetáculos e números.

MS Repórter – A escola sobrevive somente das mensalidades dos alunos?

Ulisses – A mensalidade não é suficiente, eu vivo de apresentações, na realidade eu dou aulas por hobby mesmo. O que mantêm a minha subsistência são os trabalhos que faço com apresentações.

MS Repórter – Como funcionam as aulas do Circo Escola Pantanal?

Ulisses – Nós trabalhamos com aulas continuadas, não são oficinas curtas nem workshops, tenho alunos mais antigos que querem, por exemplo, um certificado de capacitação, ou seja, já são professores, educadores físicos que querem levar o circo para somar ao trabalho que eles já desenvolvem. Nesse caso de capacitação eu dou uma oficina entre 12 e 20 horas, dependendo da necessidade do aluno na modalidade específica que ele quer, se for só tecido ele vai ter um curso intensivo só de tecido, mas isso é para alunos já iniciados. Eu falo que as aulas de circo ou você ama ou você odeia, porque não é fácil, é difícil, tem muita gente que vem e se frustra, sai chateado porque não consegue. Os alunos têm que entender que o processo de aprendizagem é demorado, não é em curto prazo.

MS Repórter – Quais os benefícios que as aulas de circo trazem para o corpo?

Ulisses – Primeiro que ela acaba com a preguiça, você fica mais disposto. Em 15 dias já tem uma melhora de alongamento, flexibilidade e autoconfiança. Quando a pessoa fala que vai fazer uma aula de trapézio, a pessoa já fantasia que vai cair quebrar um braço, quando a gente é criança a gente não tem medo de fazer uma cambalhota, fazer uma estrelinha, quando nos tornamos adulto a gente tem mil tabus cria mil barreiras psicológicas e aqui o trabalho é inverso, a gente tem que tentar quebrar essas barreiras, a gente tenta buscar essas facilidades que uma criança tem, uma criança é destemida e gente tenta deixar o adulto mais destemido. Claro que todas as manobras que fazemos aqui têm risco calculado, ninguém vai fazer alguma coisa pra se machucar, só que até o aluno entender isso demora um tempo, então ele impõe um monte de barreiras, conforme ele vai entendendo que ele é capaz de fazer aquilo a auto estima dele só vai subindo.   

MS Repórter – A partir de quantos anos se pode começar a participar das aulas na escola de circo?

Ulisses – Então, eu tinha uma turma infantil, mas como eu estou sem professor, estamos trabalhando apenas com turmas para adultos que vai dos 14 aos 65 anos.

MS Repórter – Você tem algum aluno idoso?

Ulisses – Atualmente tenho dois, uma senhora de 53 anos e um senhor de 54 anos.

MS Repórter – Tem algum aluno que faz aulas para se profissionalizar especificamente para trabalhar no circo?

Ulisses – O público que escolhe a escola para atividade física não. Esse público é formado por pessoas que estão cansadas das atividades físicas convencionais e procuram uma coisa mais alternativa, esses alunos vêm com o intuito de aprender mesmo por que acham bonito, acham legal, desafiador e acabam ficando. Tínhamos um projeto que encerrou há dois anos chamado “Formação Circense”, uma parceria que a gente tinha com a Prefeitura, onde a gente selecionava 40 crianças da rede municipal de ensino pra fazer formação com eles. Os alunos ficavam quatro anos estudando com a gente para poder se profissionalizar junto com atestado de capacitação, certificado, documentação. Nesse projeto, nós trazíamos profissionais de foram para avaliar o desempenho deles e emitia esse atestado para junto ao DRT (Delegacia Regional do Trabalho) emitir um registro na carteira de trabalho profissionalizando-os, só que por falta de recursos, verbas, o projeto teve que se dar por encerrado. Agora não estamos mais trabalhando com isso, então o foco é a formação, para formação a gente tem que pegar alunos mais novos, não adianta um adulto que nunca fez nada querer fazer, pois não vai dar tempo, é um processo demorado, quanto mais novo se começa, mais possibilidades se têm.

MS Repórter – O que o circo representa na sua vida?

Ulisses – Pra mim o circo representa o lado mais puro da alma de um ser humano. O lado mais puro da magia fantasiosa, o lado mais puro do universo fantástico está dentro da redoma do circo.

MS Repórter – Você acha que o circo perdeu um pouco da sua magia, principalmente para as crianças?

Ulisses – Eu acho que não acabou a magia, ela está lá ainda, o que acontece é que temos menos circos hoje se comparado à época dos nossos pais dos nossos avós. Os circos, principalmente no Brasil, entraram em falência, quebraram, porque não há uma gestão política que dê incentivos as trupes circenses. Hoje é muito caro se viver somente da bilheteria de um circo, por exemplo, Campo Grande raramente recebe circo pelo fato da Prefeitura e Governo do Estado não cederem um terreno para um circo que está chegando, eles cobram e cobram caro para arrendar esse lote, cobram caro água e luz e o dono do circo não tem como ter retorno disso somente com a bilheteria, ele vai ter que cobrar ingresso caro, cobrando o ingresso caro não vai ter público. Se não tiver essa parceria, fica cada vez mais difícil de fazer a difusão do circo no país.

Por essas questões, hoje só sobrevive circos de médio e grande porte, ou que tenham alguma lei de incentivo por trás ou algum patrocínio privado que custeiam alguma coisa, ou então são empresas de circos já consolidados. Por exemplo, teve um circo que veio há pouco tempo e se instalou no estacionamento de um shopping da Capital essa é a veia que eles encontraram, em se apresentar somente em estacionamentos de shoppings, eles pagam muito caro pela locação do estacionamento, mas têm um ponto garantido.

MS Repórter – Como funciona o trabalho artístico de vocês? O que mais vocês fazem além dos trabalhos de rua?

Ulisses - A gente faz praticamente tudo desde festas, aniversários, não fazemos animação, às vezes falamos que fazemos festas e as pessoas acham que fazemos animação. Por exemplo, em uma festa de 15 anos podemos fazer algumas intervenções durante a festa como malabarismo, recepção com pernas-de-pau, ou uma festa infantil que pode ter um número de palhaços. A gente trabalha dentro de algumas técnicas, o circo é dividido em várias técnicas, malabaris, acrobacia de solo, números aéreos, pirofagia,equilibrismo em perna-de-pau, e por aí vai, cada segmento é uma coisa. Então a gente atua dentro desse segmento e elabora trabalhos por encomenda e também tem atualmente dois espetáculos em cartaz, um é o “Mix” que são quadros de circo puro e o outro é “Os Nadadores”.  

Outras sobre aulas e turmas podem ser obtida através do endereço eletrônico http://circoescolapantanal.blogspot.com.br/

Por Mariana Rodrigues

Ulisses Nogueira. Fotos: Mariana Rodrigues/MS Repórter
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