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26/05/2017

Campeão e co-fundador da Federação de Luta de Braço de MS conta sobre os desafios do esporte e os títulos

segunda, 02 de setembro de 2013

Esporte eternizado pelo filme Falcão: O Campeão dos Campeões, de 1987, com Sylvester Stallone, a luta de braço possui praticantes em todo Brasil. No Mato Grosso do Sul, a Luta de braço ao mesmo tempo que possui campeões renomados, ainda é um espote “esquecido”. O MS REPÓRTER entrevistou o campeão no esporte e co-fundador da Federação de Luta de Braço de MS, Emídio Rodrigues Santos Júnior. Aos 40 anos, o bracista está há 13 anos no esporte "com muito amor e dedicação" e possui até agora 11 títulos na carreira. Ele tem sua própria mesa improvisada e revela a dificuldade que os atletas deste esporte enfrentam com apoio “Eu faço porque eu amo isso. Eu tenho minha mesa aqui, eu tenho academia na minha casa, não é revestida igual a profissional” disse.

Emídio fala ainda dos títulos conquistados ao longo da carreira e sobre o trabalho que desenvolveu na Federação, atualmente ele também treina atletas do Estado e revela “A luta de braço é um dos esportes que mais necessita de inteligência porque você precisa ter movimentos precisos”, pois não é um esporte que precisa de um físico atlético. Confira abaixo a entrevista.

MS Repórter - Como e quando foi que você iniciou na Luta de Braço?

Emídio Júnior - O início foi por volta de 1998, por brincadeira casual em casa (eu, meu irmão e meu pai, que é caminhoneiro) foi ai que a gente viu que existia federações e confederação aqui em Mato Grosso do Sul. A Federação sul-mato-grossense hoje tem 13 anos, o estatuto tudo certinho. Antes ela funcionava através da Federação de Halterofilismo, é uma federação paralela. E nisso a gente encontrou em Campo Grande o Luís dos Santos no qual era presidente dessa Federação de Halterofilismo e estava cabeceando o esporte de luta de braço. De lá então já tinham pessoas disputando Brasileiro, já tínhamos um bom ranqueamento de atletas no Estado, foi ai que eu e meu irmão (comerciantes na época) tivemos um tempo pra se dedicar ao esporte mais do que hoje. Eu não sei se era porque era novidade, foi muito bom! Nós conseguimos ter associado 570 seguidores.

MS Repórter - Quais foram as suas conquistas até agora e qual a mais marcante para você?

Emídio Júnior - Minhas conquistas foram todas passo a passo. Cada ano teve seus títulos: Em 1999 eu comecei jogando no Municipal, em 2000 eu ganhei o Municipal e o Estadual, em 2001 eu fui jogar a primeira seletiva do Brasileiro e Sul-americano, na minha primeira tacada consegui ficar em segundo lugar para este evento Sul-americano. Esbarrei no financeiro, não consegui jogar este evento que era na Argentina, mas nem por isso eu desanimei e continuei treinando arduamente (eu, meu irmão e alguns amigos).

Ao longo desta estrada eu consegui 11 títulos Brasileiros, 2 Sul-americanos, participei de 2 Mundiais. Hoje eu estou entre os 10 melhores do planeta da categoria peso pesado e esse ano eu tive o convite para jogar o profissional nos EUA, não fui por motivos financeiros. Estou classificado para jogar o Mundial pela 12ª vez, não vou pode ir, não tenho recurso para poder estar jogando.

Dos dois mundiais que eu participei, um foi em Las Vegas, se for pra ser marcante seria este porque foi muito difícil e desgastante, teve um desgaste pessoal e financeiro muito grande porque para você ir ao EUA tem que pleitear visto e investir muito dinheiro para jogar um campeonato no qual eu não tenho muita representividade financeira. Em 13 anos de trajetória, esse foi o mais marcante que até me fez pensar em parar.

MS Repórter - Você sabe dizer quantos lutadores profissionais tem aqui em Campo Grande?

Emídio Júnior - Nós chegamos a ter mais de 570 atletas em Campo Grande, nosso esporte não é profissional ainda, é amador. Ele se profissionaliza a partir que envolve essas confederações. Nosso esporte já foi duas vezes esporte de demonstração nas Olímpiadas e nas Paralímpidas. Não conseuimos ingressar ele nas Olímpiadas, mas hoje em Campo Grande temos aproximadamente 200 atletas.

Existem muitos atletas que saíram de Campo Grande para disputar Nacionais e Mundiais ou ainda esbarram em problemas financeiros como você falou? Nós temos atletas muito bons, não tem títulos por motivos financeiros. Aqui tem atletas que se fossem jogar torneios internacionais, o Carlos Alves Dias que jogou comigo nos EUA e na Argentina também, a Chris Regiane que tem vários títulos mundiais. Só que ela é diferente porque ela pleiteou uma verba com Fundação de Esporte de Mato Grosso do Sul, ela tem acesso direto com o governador. Isso abriu as portas para ela, que jogou recentemente o profissional e ficou em segundo.

Nós não temos campeões mundiais mais por motivos de investimento, se tivéssemos, teríamos a Sônia Carvalho, o Carlos Eduardo, Tibério. Nós temos atletas bons, quando nós vamos jogar Campeonatos Brasileiros tem uns sete nomes do estado que chamam pra mesa (os campeonatos acontecem em três dias e abrem categorias direito e esquerdo). Quando chamam com qualquer outro atleta do país eles perdem a vaga.

MS Repórter - Quantos e quais eventos importantes no esporte que ainda acontecem aqui no Estado?

Emídio Júnior - De 2009 a 2012 eu fui presidente da Federação de Luta de Braço de MS assim como eu fui o vice-presidente da entidade em 2000. Eu sempre estive muito ligado a luta de braço porque é um esporte que eu amo, não importa o investimento que eu tenha que fazer para viajar atrás de um campeonato que eu ache importante.

Agora os eventos que vem sendo realizados infelizmente esbarram na parte administrativa da Federação sul-mato-grossense. Nosso presidente hoje, é o Eduardo Ferreira, de Três Lagoas. Tivemos 2 Campeonato Estaduais esse ano, um Municipal e Estadual, nós precisamos ter por ano 9 campeonatos.

Hoje o melhor Estado que tem um índice ótimo de aproveitamento dos bracistas é São Paulo. Todo mês eles têm três campeonatos, é outra potência, é outra política, mas Salto, Indaiatuba, Campinas tem centro de treinamento de 300m². Você treina 50 atletas simultâneamente, 50 atletas em 3 horas de treino são 150 pessoas em uma noite e mesmo assim eles não batem algumas cateogorias na qual eu sou campeão, na qual o Carlos é campeão e a Chris, então nós temos três categorias que já é do Estado escrevemos nosso nome. Se você ver minhas medalhas eu tenho mais de 11 titulos direito e esquerdo [apontando]. Se nós tivéssemos um apoio nós seríamos uma potência extraordinária.

Mas eu não olho o lado do investimento das entidades, eu vejo que eles têm um compromisso com o esporte? Tem. Mas eu faço isso porque eu gosto, eles não são obrigado a me ajudar a viajar e buscar títulos para o Estado. Necessariamente eu faço este esporte para mim, para o meu ego e da minha família. Eu faço porque eu amo isso. Eu tenho minha mesa aqui, eu tenho academia na minha casa, não é revestida igual a profissional, mas às vezes algum amigo aqui do inteiror e quer jogar. Eu tenho 13 anos de historia e não tive ninguém pra ajudar, graças a deus eu tenho mutios amigos no esporte. Eu faço esporte pelos amigos, eu não tenho inimigos no braço de ferro no mundo. Eu já joguei em Las Vegas, Buenos Aires, Curitiba, São Paulo, João Pessoa. Já viajei bastante pela luta de braço, hoje eu priorizo alguns evento [como Brasileiro, Sul-americano e Mundial] e isso nem todas as Copas Brasil entre seleções que tem eu não vou por motivos financeiros.

MS Repórter - Então Mato Grosso do Sul não possui nenhum centro de Treinamento para os bracistas treinarem?

Emídio Júnior - Não tem. Por exemplo, o Carlos é campeão e treina na casa dele. Nós fizemos um circuito lá aonde os exercícios que ele vai fazer vai dar um condiconamento técnico e físico para o esporte. Eu também tenho circuito em casa. O Centro de Treinamento tem um custo, e esse custo infelizmente as entidade municipais e estaduais não estão a fim de bancar.

MS Repórter - O esporte aqui em Mato Grosso do Sul só tem investimento do Estado?

Emídio Júnior - Isso eu posso falar mais direto, por exemplo, quando eu fui presidente da entidade por três anos, eu tive apoio para fazer circuito municipal por três anos. Já o Estado nos ajudou durante três anos e durante este tempo e nós fizemos 23 campeonatos. Nós viajamos o estado inteirinho fazendo campeonatos. Até nós temos adeptos em Três Lagoas, Sidrolândia,Nioaque, Guia Lopes, Bonito, Jardim, Laguna Carapã, Corumbá, Anastácio. Se a Secretaria de Esporte de cada município ajudar nós éramos outros, teríamos outro ranqueamento, nós devemos estar em 5º lugar apesar de São Paulo ser muito forte.

99% do eventos brasileiros de luta de braço é executado no estado de São Paulo, o mundial de 2012 foi em São Vicente, o brasileiro foi em São Vicente. São Vicente apoiou 100% o esporte com primiação, hospedagem, translado, pessoal que venho do campeonato internacional desceu em São Paulo e a prefeitura cedeu um onius para buscar o pessoal no aeroporto.

Agora aqui em Campo Grande eu já estive fazendo eventos de nível nacional e a gente não consegue uma Kombi para pegar um atleta especial no aeroporto porque o campeonato tem participação de deficientes e ele vem de uma forma especial e o tranalado precisa ser pescial, não é qualquer carro e a gente não consegue.

Quando a federação pergunta se esse requisito está ok a gente não consegue. A Federação não tem recurso para investir em um translado, não tem fonte de renda, o que alavanca esses eventos é a verba cedida pelas fundações. Eu não sei por que tem algumas fundações que não ajudam. Você vai a São Caetano e lá tem atletas que viajam o Brasil interiro com todas as despesas pagas, técnicos e fisiologista acompanhando. E eles não melhores que nós não, nós temos mais reultado que eles, temos atletas aqui que se pudessem ir viajar para campeonatos serem os melhores porque você só fica bom podendo competir. São Paulo são os melhores em algumas categorias porque eles tem três campeonatos por mês. Infelizmente a gente não consegue fazer campeonato em Campo Grande, eu tenho certeza que se tivesse verba a gente teria todo mês campeonato como tivemos em alguns anos. 

Quando o Luís dos Santos foi presidente da feração a gente tinha campeonato todo mês, o presidente faz a diferença. O Luís dos Santos foi um marco pra mim na luta de braço, ele fez acontecer, até hoje pra mim ele é o cara da luta de braço. Hoje ele não está mais em nosso meio porque optou pelo futebol, mas pra mim ele foi o que mais fez eventos e dedicou a vida dele à luta de braço.

Há 13 anos que eu acompanho esse dilema, e ele tinha mais acesso, trabalhava na Fundação de Esportes do Município, então acontecia as coisas.

MS Repórter - Mas por que você acha que o esporte é pouco divulgado por parte da mídia e também de quem quer apoiar?

Emídio Júnior - Em 2002 nós tivemos a Copa do Mundo e o Brasil foi para final. E na final aqui [em Campo Grande] o Campeonato Brasileiro, no Parque Ayrton Senna. E nós não tivemos público suficiente para um campeonato brasileiro porque o pessoal estava assistindo a Seleção Brasileira perder para a Itália.

Eu fui presidente da entidade por três anos, e eu sempre busquei a mídia antes de viajar e pós-viajem. Só que se tiver um evento aleatório no ramo esporte futebol a gente perde. No máximo que falam é “A equipe de Mato Grosso do Sul vai disputar um campeonato em x lugar”. A nossa dificuldade é brigar porque nós não damos tanto ibope quanto o futebol, a Fórmula 1 dá, mas quem conhece a luta de braço é amor, se souber de um campeonato ele vai para assistir, nós tinhamos bastante pessoas que acompanhavam o esporte só que com essa mudança de presidentes nós estamos dois anos num rumo de incertezas. Ficou com o Emilson Barreto que foi meu sucessor, hoje está com o Eduardo e tudo isso aí diminui um ouco o contato porque às vezes os outros presidentes não dão ênfase na mídia. Isso é importante para um esporte pequeno igual o nosso, para poder aparecer. E são pessoas que muitas vezes não tem o preparo.

Eu vejo nosso esporte um esporte de força que pode ser remanejado um atleta para outro esporte de força como levantamento de peso, arremesso de disco, arremesso de martelo. Nós temos esse esporte nas Olímpiadas e nosso povo não valoriza o esporte individual, você vai ver nas Olímpiadas, nós poderiamos ser os melhores em 2014, mas infelizmente não estou vendo investimento suficiente para que isso aconteça. Um atleta campeão não é feito em dois anos. Como os americanos investem nas universidades deles, o cara estuda, treina e a partir de quando ele não tem um desempenho legal nas notas é tirado do time. Nos EUA eles dão bolsa para atletas.

MS Repórter - Você pode me dizer se a luta de braço é um esporte que pode ser praticado desde a infância, como futebol por exemplo?

Emídio Júnior - Sim. A luta de braço começa com juniores, que é a nossa base, nós temos o sub-21 também. São crianças a partir dos 14 anos de idade. Os russos são os melhores do mundo, accriança na lá quando nasce, faz o ensino fundamental e já ta na mesa. Aqui no Brasil eles dão uma bola para criança jogar, lá eles fazem uma mesa. No Casaquistão e Turquia também, eles não são os melhores, mas são ótimos nesse esporte.

Agora aqui em Campo Grande nós não temos juniores, nós não consegumos fidelizar juniores, eu vejo mais seniores e master. Nós tinhamos um portador muito bom, Carlos Aparecido, ele foi campeão brasileiro duas vezes consecutivas, foi par ao Mundial pelo estado de Mato Grosso do Sul. A gente perdeu esse atleta, ele foi sete vezes campeão do mundo na categoria dele deficiente. Hoje ele tem uma Bolsa Federal. Eu tentei essa bolsa com todo meu currículo e não consegui. Entra também nos quesitos quem indica e quem é indicado. Às vezes você deixa de competir em um campeonato fora porque vende marmita. Eu tenho um amigo que vendeu o carro para jogar nos EUA e hoje faz 8 anos que ele esta lá.

MS Repórter - Você já pensou em sair do Estado, recebeu algum convite?

Emídio Júnior - Já, já tive convite para jogar para São Caetano. Já joguei para o estado do Paraná no qual eles me subsidiaram por quase dois anos, então desses 11 títulos que eu tenho dois são do Paraná e o restante é pelo Estado. Mudar do Estado não, não posso minha família agora sedia aqui e eu vejo muito meu lado família. Por mais que eu vá treinar com os melhores do Brasil e do mundo. Eu já estive pensando em me aposentar já, encerrar minha carreira com chave de ouro porque este ano eu ganhei direiro e esquedo com o Brasileiro. Só que até ano que vem eu tenho muita coisa para decidir.

MS Repórter - Além da Chris Regiane, existe muitas mulheres adeptas do Esporte?

Emídio Júnior - No Estado teria Sônia Carvalho e mais umas 4 até mesmo por motivos financeiros, as pessoas investem e acabam não tendo o foco executado, desanimam no caminho.

MS Repórter - O que é necessário para uma pessoa se tornar bracista? O músculo conta?

Emídio Júnior - Não. Tem que ter primeiro vontade. Porque todos nós nascemos iguais então é só ter dedicação e focar o que você quer ser que você vai conseguir. Você vai se dedicar a um esporte, fazer um treinamento, um tratamento fisiológico se preciso for, obviamente você vai conseguir ter condicionamento físico, não é porque você tem volume de massa muscular que você é forte. Você não precisa ter tamanho, precisa ter força e inteligência. A luta de braço é um dos esportes que mais necessita de inteligência porque você precisa ter movimentos precisos, esse movimentos precisos em uma luta define velocidade. Uma pessoa com tamanho de velocidade muscular muito grande não tem tanta velocidade, ja uma pessoa mais fina consegue emplacar um certo ritmo. Não é de um dia pro outro, você treina dois mese faz avaliação e depois mais dez meses, um ano. Eu fui ser campeão do Brasil em três anos, mas nisso eu sempre fiquei entre os três. Tinha um resgardo da alimentação, não ia pra festa, um mês antes você tem que ter um horário certo para estar dormindo.

MS Repórter - Depois que você deixou a Federação, você passou a dar aulas?

Emídio Júnior - Sim, eu auxilio os atletas do Estado principalmente em campeonato nacionais como técnico e também dou aulas. Eu aprimoro as téncnicas deles porque 13 anos vendo lutas a gente acaba entrendendo o movimento. Aluta de braço são movimentos precisos, se você tem movimentos exatos na hora exata você é campeão.

Por: Ana Paula Duarte

Foto: Gabriel Olímpio/ MS Repórter
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