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22/09/2017

As mulheres precisam vencer o medo e denunciar, diz Tai Loschi sobre violência doméstica

domingo, 26 de janeiro de 2014

 Tai Loschi, subsecretária da Mulher e da Promoção da Cidadania concedeu entrevista ao MS Repórter onde falou sobre a violência contra a mulher. Em Mato Grosso do Sul vários de agressão e morte já foram registrados no primeiro mês de 2014.

Segundo Tai, Campo Grande está no primeiro lugar no disque 180 à nível nacional. No ano passado foram registrados 14.923 boletins de ocorrências de vítimas de violência domestica em Mato Grosso do Sul.

MS Repórter – Qual é o trabalho que a subsecretaria realiza em relação às mulheres vítimas de violência doméstica?

Tai Loschi – No Estado de Mato Grosso do Sul, o governador André Puccinelli tem o compromisso com as mulheres sul-mato-grossenses de trabalhar no fortalecimento da Rede de Enfrentamento à Mulher e fazer valer a Lei Maria da Penha no Estado. A Lei é mais forte e é dever do Estado e da sociedade acolher as mulheres vítimas de violência. Quando falo de rede de enfrentamento me refiro a Segurança Pública, Tribunal de Justiça, postos de saúde e Organismos de Políticas Públicas para as Mulheres que têm em MS.

MS Repórter – A que você atribui o aumento de atendimentos às mulheres vítimas de violência doméstica?

Tai – As mulheres que estão buscando ajuda na Rede de Enfrentamento a consideram com credibilidade. A equipe que trabalha na Rede está toda preparada, capacitada para atender, acolher e orientar essas mulheres. Os dados de Campo Grande em relação ao ano de 2013 revelam que o Centro de Referência de Atendimento à Mulher “Cuña Mbarete” (Mulher Forte) teve 4.597 atendimentos no período de janeiro a dezembro. Em 2012 esse número foi de 3.955 atendimentos. As mulheres precisam vencer o medo, o ciclo da violência chega a fazer com que o agressor atinja o psicológico, dizendo que ela não irá dar conta de ficar sozinha de cuidar dos filhos, de seguir em frente, e isso vai embutindo na cabeça dela e ela vai ficando com medo dele e ele vai agredindo ela moralmente, psicologicamente, fisicamente, até chegar nas vias de fato, que é o tapa, o empurrão e o tiro. Então as mulheres têm que se libertarem, tem que enfrentar o ‘lobo’ e buscar ajuda.

O 180, a ligação para esse número que abrange nível nacional, na hora que a vítima está em conflito e busca o 180 eles irão perguntar o endereço que ela está, ela dizendo o nome da rua e o bairro, eles irão encaminhar para o local mais próximo para buscar ajuda, ou na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher ou no Centro de Referência de Atendimento à Mulher, ou ainda nos postos de Saúde. Enfim, vão orientá-la para ser atendida, acolhida e tomar a decisão do que quer da vida, ela vai escolher se quer uma vida feliz, se quer ter novos rumos, para isso ela tem que tomar atitude e buscar ajuda.

MS Repórter – Em sua opinião, os registros de casos envolvendo agressões contra as mulheres aumentaram por elas estarem denunciando mais?

Tai – Elas buscam mais ajuda. A Lei Maria da Penha tem sete anos, a Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República tem 10 anos, foram criados conselhos de Direitos, Conselho Estadual de Direitos da Mulher, Conselho Estadual de Direitos Humanos, Conselho Estadual da Mulher Indígena. Todas as cidades pólos do Estado já têm atendimento à mulher vítima de violência, está institucionalizado isso e elas têm buscado ajuda.  A partir do momento que uma busca ajuda e é atendida e acolhida, ela comenta no ciclo de convivência que ela tem na sociedade e uma vai dizendo para a outra. Porque a mulher tem o direito de decidir pelo corpo e pela vida dela, e esses agressores querem um objeto em casa para lavar, cozinhar e para fazer amor na hora que eles quiserem. Hoje tem leis que dizem que fazer amor sem estar com vontade é considerado abuso sexual, a mulher só deve fazer o que ela sentir vontade, é o direito de ir e vir e os direitos são iguais. Agora a violência de gênero é muito forte no nosso estado, por conta da questão machista, por causa da questão patriarcal, os desentendimentos acontecem por uso abusivo e excessivo de álcool e de drogas, muitas vezes são os dois juntos, ou o ciúme doentio, sentimento de posse e também o que ocasiona muitos conflitos é a situação financeira abalada. Quando o casal está enfrentando dificuldade financeira também acarreta violência, então a gente orienta que no primeiro desentendimento busque ajuda, comente com os familiares, se o juiz determinar que ela esteja correndo risco de vida e precisa de uma medida protetiva, não coloque esse documento dentro do guarda roupa, use esse documento próximo ao telefone, use dentro da bolsa, pois assim que a vítima aciona o 190 e informa o número desse documento e diz à polícia que tem medida protetiva , eles imediatamente vão acolher essa vítima e vão prender esse agressor se ele estiver a perseguindo, mas ela precisa estar comentando no ciclo familiar e no trabalho  que ela está sofrendo risco de vida e tem medida protetiva .

MS Repórter - Por que as mulheres da classe A são as que denunciam menos?

Tai – Porque elas têm vergonha, no caso delas não é só o medo, mas também a vergonha de dizer que está sofrendo violência. Elas procuram menos a Rede de Enfrentamento. As mulheres que moram na periferia são mais despojadas, estão encorajadas a denunciar. Por isso que Campo Grande está no primeiro lugar no disque 180 a nível nacional no primeiro semestre de 2012 e primeiro semestre de 2013. São dados alarmantes, mas demonstram que as mulheres estão encorajadas a buscarem ajuda.

MS Repórter – Geralmente os casos que são mais noticiados são de maridos que agridem as mulheres, mas um caso chamou a atenção, onde supostamente o namorado agrediu a namorada por ciúme, que foi o caso da Giovanna. Como essas meninas devem agir nesses casos?

Tai – A violência é um ciclo, começa tudo bem, aí vêm às agressões e as promessas de que não vai mais fazer, que ama de paixão e aí ele volta a agredi-la até chegar as vias de fato. Por isso que as estatísticas dizem que a mulher vai buscar ajuda após a quinta surra. Nós recebemos no Centro de Atendimento um caso onde a noiva denunciou o noivo, ela já havia sido avisada que ele era agressivo, mas ela ignorou e começou a namorar o rapaz. Os dois frequentavam a igreja  e mesmo assim ele começou a agredi-la e depois que ela apanhou ela foi procurar ajuda, mas ela foi avisada antes, então a mulher não tem que esperar apanhar ela não é objeto.

MS Repórter – Pesquisar os antecedentes criminais do parceiro para saber se ele tem passagem por agressão evitaria a violência doméstica?

Tai – Não. É o convívio, é a forma de ele entender a mulher como uma pessoa sublime, que tem todos os direitos iguais a ele. É a questão machista que não deixa ver nada disso, é a questão patriarcal, o homem foi constituído para ser o chefe da casa, ele se esquece da questão do respeito e quer determinar o que a mulher vai fazer e isso não é assim, os direitos são iguais e tem que serem respeitados.

MS Repórter - A Coordenadoria da Mulher está presente em quantos municípios?

Tai – Em 25, que nós chamamos de cidades pólos e temos duas casas abrigo, uma em Dourados e outra aqui em Campo Grande. Na hora que o juiz determina que a mulher vítima de agressão esteja correndo risco ela vai para esse abrigo.

MS Repórter – Como funciona a casa abrigo? Quantas mulheres são atendidas?

Tai – A vítima fica lá por até três meses, ela que decide o momento que ela se sente fortalecida e então toma a decisão se quer retomar o relacionamento ou se quer começar a vida. Lá ela fica com os filhos de até 14 anos.

De acordo com dados, no período de janeiro a dezembro de 2013, a Casa Abrigo atendeu 29 mulheres e 54 crianças em Campo Grande e oito mulheres e 11 crianças em Dourados. Já o número de boletins de ocorrências que foram feitos por conta de violência doméstica foi de 14.923 no estado no mesmo período de janeiro a dezembro.

MS Repórter – Quais são os projetos da Subsecretaria para este ano de 2014?

Tai – Temos projetos de campanhas educativas, de capacitação para as mulheres. Temos duas unidades móveis que foram entregues no mês de dezembro de 2013 e vão atender a Lei Maria da Penha nos assentamentos  que somam 204 acampamentos , 22 comunidades quilombolas, 75 aldeias indígenas que essas unidades móveis irão percorrer  neste ano. E em alusão ao dia 8 de março, onde se comemora o Dia Internacional da Mulher, no dia 10 teremos a presença da socióloga feminista Jacira Melo do Instituto Patrícia Galvão. Que irá ministrar uma palestra para a Rede de Enfrentamento à Mulher do Estado.

MS Repórter – Hoje em dia qualquer pessoa pode denunciar a agressão contra a mulher. Você acredita que isso tenha contribuído para o aumento do número de ocorrências?

Tai – Muito, um exemplo é a mulher que ficou encarcerada em um bairro de Campo Grande, por 20 anos, todo mundo sabia. O agressor bateu nela com cabo de vassoura por várias horas, e então a vizinha resolveu denunciar e acionou a Polícia. A responsabilidade é do estado e da sociedade, agora a Lei Maria da Penha é tolerância zero ela veio para coibir a violência doméstica e punir o agressor, ele tem que ir para a cadeia. Se ela precisar do atendimento na rede de saúde e envolver custo é ele quem vai ter que arcar com as despesas. Uma pesquisa nacional disse que só 2% da população brasileira não conhece a Lei Maria da Penha, todo dono de bar conhece a lei e porque o agressor não bate no dono do bar? Por causa da questão de gênero, ele sabe que o dono do bar tem força igual a ele.

MS Repórter – A população pede pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher 24 horas, o que é orientado enquanto a delegacia não funciona nesse período?

Tai – Orientamos a sociedade que aos sábados, domingos e feriados, busque qualquer delegacia de plantão em todo o Estado, enquanto não tem há Deam 24 horas busque a de plantão. Mas dentro do Programa Mulher Viver Sem Violência do Governo Federal, foi assinado o termo de adesão aqui da Casa da Mulher Brasileira. O terreno já foi doado pela União e vai acolher Ministério da Justiça, Segurança Pública, Prefeitura, Governo do Estado. Dentro da segurança pública irá funcionar a delegacia 24 horas. Na Casa da Mulher Brasileira vai funcionar a Deam , Sistema de Justiça, Atendimento psicossocial com a equipe multidisciplinar , sala de emprego e renda , apoio de convivência e brinquedoteca para as crianças. Vai ter ainda um alojamento de passagem para a mulher vítima de violência ficar por três dias, caso ela precise ficar por mais tempo ela será encaminhada para a Casa Abrigo.

Quando a vítima precisar de um veículo que a leve até a Casa da Mulher Brasileira, ela vai ter um veículo a disposição. Essa casa é pré-moldada e eles me garantiram que este ano ela estará pronta.

 

Por Mariana Rodrigues

Foto: Mariana Rodrigues/MS Repórter
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